quarta-feira, 16 de março de 2011

MEDIUNIDADE MENTAL

Recolhimento interior facilita intercâmbio

Allan Kardec publicou em sua Revista Espírita (1), de março de 1866, com o título que igualmente utilizamos na presente abordagem, uma correspondência recebida da Argélia, à qual ele acrescenta seus sempre ponderados e bem fundamentados comentários.
O assunto, inclusive, foi levado para debate na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e ensejou que os espíritos transmitissem algumas instruções que ele igualmente publicou na mesma edição acima referida.
Escreve o correspondente:
“(...)Fico alguns instantes à espera, como depois de uma evocação. Então sinto a presença do espírito por uma impressão física e logo surge em meu pensamento uma imagem que me faz reconhecê-lo. Estabelece-se a conversa mental, como na comunicação intuitiva, e esse gênero de palestra tem algo de adoravelmente íntimo. Muitas vezes meu irmão e minha irmã encarnados me visitam, às vezes acompanhados por meu pai e minha mãe, do mundo dos Espíritos.(...)”

E comenta o Codificador, com toda sua clareza:
Esta mediunidade, à qual damos o nome de mediunidade mental, certo não é adequada para convencer os incrédulos, porque nada tem de ostensivo, nem desses fatos que ferem os sentidos. É toda para a satisfação íntima de quem a possui. Mas também é preciso reconhecer que se presta muito à ilusão e que é o caso de desconfiar das aparências. Quanto à existência da faculdade, não se poderia pô-la em dúvida. Pensamos mesmo que deve ser a mais frequente, porque é considerável o número das pessoas que, em vigília, sofrem a influência dos Espíritos e recebem a inspiração de um pensamento, que sentem não ser seu. A impressão agradável ou penosa que por vezes se sente à vista de alguém que se encontra pela primeira vez; o pressentimento da aproximação de uma pessoa; a penetração e a transmissão do pensamento são outros tantos efeitos devidos à mesma causa e que constituem uma espécie de mediunidade, que pode dizer-se universal, pois cada um lhe possui, ao menos, os rudimentos. Mas para experimentar seus efeitos marcantes é necessária uma aptidão especial, ou melhor, um grau de sensibilidade mais ou menos desenvolvido, conforme os indivíduos.(...)”

Das instruções sobre o assunto, recebidas dos espíritos, encontramos quatro publicadas na Revista Espírita.

A primeira delas está assinada pelo espírito H. Dozon (médium: Sr. Delanne) e apresenta os seguintes comentários:
“É possível desenvolver o sentido espiritual, como diariamente se vê desenvolver-se uma aptidão por um trabalho constante. Ora, sabei que a comunicação do mundo incorpóreo com os vossos sentidos é constante; ela se dá a cada hora, a cada minuto, pela lei das relações espirituais. (...) Constantemente estão ao vosso lado; eles vos vigiam; vossos familiares vos inspiram, vos suscitam pensamentos, vos guiam; falam-vos e vos exortam; protegem os vossos trabalhos, ajudam-vos a elaborar os vossos desígnios, formados pela metade e os vossos sonhos ainda indecisos; anotam vossas boas resoluções, lutam quando lutais. (...) Oh! Não, jamais negueis vossa assistência diária; jamais negueis vossa mediunidade espiritual (...)”

Já a segunda mensagem, assinada por um Espírito Protetor (Médium: Sra. Causse), traz o seguinte ensinamento:
“ Sim, esse gênero de comunicação espiritual é mesmo uma mediunidade, como, aliás, tendes ainda outros a constatar, no curso de vossos estudos espíritas. É uma espécie de estado cataléptico, muito agradável para quem o experimenta. Proporciona todas as alegrias da vida espiritual à alma prisioneira, que aí encontra um encanto indefinível, que gostaria de experimentar sempre. Mas é preciso voltar de qualquer modo. E semelhante ao prisioneiro ao qual permitem tomar ar num prado, a alma entra constrangida na célula humana. (...) Esta mediunidade existe no estado inconsciente em muitas pessoas. Sabeis que há sempre perto de vós um amigo sincero, sempre pronto a sustentar e a encorajar aquele cuja direção lhe é confiada pelo Todo-Poderoso. Não, meus amigos, esse apoio não vos faltará jamais; cabe-vos saber distinguir as boas inspirações entre todas as que se chocam no labirinto de vossas consciências. (...)”

A terceira mensagem está assinada por São Luís (Médium: Sra. Delanne) e esclarece:
“Já vos foi dito que a mediunidade se revelava por diferentes formas. A que vosso Presidente qualificou de mental está bem chamada. É o primeiro degrau da mediunidade vidente e falante. (...) enquanto que o médium mental pode, se for bem formado, dirigir perguntas e receber respostas, sem o intermediário da pena ou do lápis, mais facilmente que o médium intuitivo. Porque aqui o Espírito do médium, estando mais desprendido, é um intérprete mais fiel. Mas para isto é necessário um ardente desejo de ser útil, trabalhar em vista do bem com um sentimento puro, isento de todo pensamento de amor-próprio e de interesse. De todas as faculdades mediúnicas é mais sutil e a mais delicada: o menor sopro impuro basta para a manchar. Só nessas condições é que o médium mental obterá provas da realidade das comunicações. (...)”

E, finalmente, a última mensagem, assinada por Luís de França (Médium: Sra. Breul), traz o seguinte ensinamento:
“Seguramente, meus amigos, a mediunidade, que consiste em conversar com os Espíritos, como com pessoas que vivem a vida material, desenvolver-se-á mais, à medida que o desprendimento do Espírito se efetuar com mais facilidade, pelo hábito do recolhimento. Quanto mais avançados moralmente forem os Espíritos encarnados, maior será esta facilidade de comunicações.(...)”

Ora, toda essa transcrição, com sua beleza textual e, ao mesmo tempo, fonte de tão amplos esclarecimentos, não tem outro objetivo senão destacar que estamos sempre amparados pela Bondade Divina através da presença carinhosa dos bons espíritos.
E, igualmente, que podemos sim buscar a inspiração, a orientação superior, por nós mesmos, através do recolhimento mental e do aprimoramento moral que nos aproxima dos bons espíritos.
Ninguém está desamparado, sozinho, abandonado. Estamos todos envoltos em vibrações de amor daqueles que nos acompanham e orientam do Plano Espiritual.
Todavia, por nossa vez, temos o dever de nos aprimorarmos moral e intelectualmente, para que possamos, com mais clareza, captar as suaves e consoladoras instruções que sempre nos são transmitidas.


Matéria publicada originariamente na RIE
edição de junho de 2005.

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